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Lula em São Bernardo reúne 40 mil na Vila Euclides

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Lula em São Bernardo reúne 40 mil na Vila Euclides

Lula em São Bernardo marcou, neste domingo (16), o retorno do presidente à Vila Euclides, 47 anos depois de um dos momentos mais simbólicos de sua trajetória como líder sindical. Diante de 40 mil pessoas, Lula abriu oficialmente sua campanha à reeleição e relembrou as greves dos metalúrgicos do ABC que desafiaram a ditadura militar no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980.

O reencontro aconteceu no mesmo estádio onde, em 1979, Lula precisou subir em uma mesa emprestada de um bar para falar aos trabalhadores sem microfone. Quase cinco décadas depois, a estrutura era outra: um grande palco, telões e milhares de pessoas acompanhando o discurso.

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Para Lula, porém, a ligação com aquele período continua presente.

Lula em São Bernardo reúne 40 mil na Vila Euclides
Lula em São Bernardo reúne 40 mil na Vila Euclides – Crédito: Ricardo Stuckert

“A emoção de hoje é uma emoção ímpar. É uma emoção que estou sentindo muito mais forte do que a que senti em 1979, aqui mesmo neste estádio”, afirmou.

A cerimônia também teve forte conteúdo simbólico. A cantora Fafá de Belém interpretou o hino nacional, acompanhada por fogos nas cores verde e amarela. Do público, veio o tradicional coro de apoio ao presidente: “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”.

Antigos companheiros voltam à Vila Euclides

Durante o evento, telões exibiram depoimentos de antigos companheiros de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Os relatos recuperaram episódios das greves que marcaram a resistência dos trabalhadores durante a ditadura.

Lula acompanhou os depoimentos de pé. Na sequência, trabalhadores que apareceram nas imagens subiram ao palco e abraçaram o presidente.

O encontro entre os antigos metalúrgicos e Lula reforçou a ligação entre a história sindical do ABC e a trajetória política construída nas décadas seguintes.

A memória também passou pela família. Lula recordou a morte de sua mãe, Dona Lindu, em 1980, quando ele estava preso por causa da greve de 41 dias dos metalúrgicos. Mesmo durante a ditadura, recebeu autorização para deixar a prisão e acompanhar o sepultamento.

O presidente comparou aquele episódio ao que viveu em 2019, quando estava preso e afirmou ter sido impedido de sair para acompanhar o enterro do irmão Vavá.

“Você vê a diferença. No tempo da ditadura militar, um delegado de polícia permitiu que eu saísse da cadeia para ir ao enterro da minha mãe. No regime democrático, um juiz, um ministro que eu indiquei, não permitiu que eu saísse para ir ao enterro do meu irmão”, relatou.

Em seguida, resumiu a mensagem que, segundo ele, marcou sua formação:

“Os homens não são medidos pelas épocas. Os homens são medidos pelo caráter, pela dignidade, pela criação que tiveram de berço”.

Lula também atribuiu à mãe parte importante da formação que levou para a vida política.

“Devo a minha vinda aqui hoje em agradecimento à Dona Lindu, que é responsável por tudo o que sou na vida”, declarou.

A lição de 1979 que Lula levou para a política

A Vila Euclides também serviu de cenário para Lula relembrar um dos episódios que considera decisivos em sua formação como liderança.

Em 1979, depois de duas semanas de greve, Lula avaliou que uma proposta apresentada pelos empresários permitiria o retorno dos trabalhadores às fábricas enquanto as negociações continuavam.

Ele pediu um voto de confiança aos metalúrgicos. A proposta foi aprovada, mas parte dos trabalhadores deixou o estádio insatisfeita, convencida de que havia sido traída.

No ano seguinte, Lula passou a tentar reconstruir a confiança da categoria. Voltou às portas das fábricas, conversou com os trabalhadores e defendeu que uma paralisação prolongada poderia atingir diretamente as famílias, que precisavam manter despesas básicas como aluguel, alimentação e outras necessidades.

Em 1980, uma nova greve terminou com a prisão de Lula e milhares de demissões. As reivindicações da categoria não foram conquistadas naquele momento.

Apesar disso, Lula afirmou que a experiência mudou a forma como passou a enxergar a liderança política.

“Em 1979, fui tratado como se fosse covarde. Em 1980, quando achei que seria massacrado, virei herói. Os trabalhadores descobriram que eu estava certo em 1979 e aprenderam a lição em 1980”, contou.

Segundo Lula, aquela experiência ensinou que uma liderança não pode simplesmente dizer aquilo que uma multidão quer ouvir.

“Isso foi a mais importante lição política que tive na minha vida. A lembrança deste estádio, para mim, é inesquecível”.

Da luta sindical à criação do PT

A experiência nas fábricas também levou Lula a mudar sua relação com a política partidária.

Ele contou que, depois da greve de 1978, dizia não gostar de políticos nem de política. Com o tempo, passou a considerar contraditório enfrentar patrões durante todo o ano e, nas eleições, entregar o comando do país a representantes de interesses que os trabalhadores combatiam nas fábricas.

“O defeito de quem não gosta de política é que o país é governado por quem gosta. É preciso a gente fazer política para aprender a escolher corretamente quem vai ser vereador, deputado, prefeito, governador e presidente”, afirmou.

A partir dessa percepção, Lula relatou que surgiu a ideia de construir um partido formado pela própria classe trabalhadora.

“Eu queria um partido dos trabalhadores para a gente eleger deputado, vereador e prefeito e começar a fazer as coisas em que a gente acredita”, lembrou.

A relação com os trabalhadores, segundo o presidente, continua sendo baseada na confiança construída desde os tempos de sindicalismo.

“Eu não tenho o direito de mentir para aqueles que confiam em mim, para aqueles que gostam de mim. Vocês podem ter certeza da minha lealdade com vocês”.

Lula apresenta prioridades para um quarto mandato

Durante o discurso em São Bernardo do Campo, Lula também apresentou temas que pretende colocar no centro de uma eventual nova gestão.

Entre eles estão educação, saúde, moradia, emprego, segurança pública, soberania nacional, ciência, tecnologia e industrialização.

Ao falar sobre educação, o presidente defendeu a ampliação do ensino superior e da educação profissional, além da expansão das escolas de tempo integral.

“Quero meninas e meninos bem formados, bem estruturados, não apenas para trabalhar no mercado de trabalho, mas para construir outro país”, disse.

Lula afirmou que, quando assumiu a Presidência pela primeira vez, em 2003, aproximadamente 5 milhões de trabalhadores tinham diploma universitário. Segundo ele, atualmente esse número chega a cerca de 25 milhões.

Também destacou a expansão das universidades e das unidades da Rede Federal de Educação Profissional durante os governos do PT.

Ao mencionar uma visita à Universidade Federal do ABC, Lula citou uma comparação de custos entre educação e sistema prisional.

“Qual é a lição? Investir em educação é muito mais barato do que investir na cadeia. Temos que dar oportunidade quando as pessoas são crianças e jovens para criar um país mais civilizado”, defendeu.

A proposta apresentada também inclui atividades de arte, música, dança e educação ambiental nas escolas, além da formação para a igualdade entre homens e mulheres.

“O menino tem que começar a aprender desde criança que o homem não é melhor do que a mulher. Ele tem que aprender que nós somos iguais”.

Segurança pública e combate ao crime organizado

Na área da segurança pública, Lula defendeu uma atuação mais concentrada contra os grupos que financiam e comandam organizações criminosas.

A proposta mencionada durante o discurso inclui bloqueio de contas, apreensão de patrimônio e combate ao poder econômico das organizações envolvidas com a criminalidade.

O presidente também voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública caso seja aprovada a proposta de emenda à Constituição sobre o tema.

“Nós vamos libertar o povo das vilas mais pobres, onde tem quadrilha que manda e inferniza a vida das pessoas. Vamos prender todo mundo que acha que é dono de uma favela ou de um bairro pobre”, prometeu.

Soberania e indústria entram no discurso

Outro ponto destacado foi a soberania brasileira sobre minerais estratégicos e terras raras.

Lula afirmou que o Brasil precisa aproveitar suas reservas minerais para desenvolver tecnologia, fortalecer a indústria e criar empregos qualificados, em vez de exportar matéria-prima e importar produtos industrializados.

“A gente não quer exportar o mineral bruto para depois comprar as coisas feitas com ele. Queremos extrair aqui, transformar aqui, industrializar aqui, produzir aqui e gerar riqueza”, afirmou.

O presidente também disse que o Brasil manterá relações comerciais e diplomáticas com diferentes países, mas não permitirá que outras nações controlem suas riquezas minerais.

“Nós não temos opção pela China nem pelos Estados Unidos. Ninguém vai explorar os nossos minerais. Nós é que vamos explorá-los em benefício do povo brasileiro.”

Para Lula, investimentos em educação, ciência, tecnologia e indústria são fundamentais para que o país amplie sua participação no cenário internacional.

“Este país está devendo a si mesmo se transformar numa grande nação. E nós vamos fazer deste país uma grande nação.”

Vila Euclides marca o início de uma nova campanha

Lula em São Bernardo reúne 40 mil na Vila Euclides
Lula em São Bernardo reúne 40 mil na Vila Euclides – Crédito: Ricardo Stuckert

Ao final do evento, Lula pediu que a militância leve às ruas a comparação entre os resultados de diferentes governos, citando temas como geração de empregos, educação, salários e investimentos sociais.

“Criem vergonha na cara, parem de mentir, porque o povo brasileiro não vai aceitar que a mentira vença a verdade”, afirmou ao rebater críticas da oposição.

A despedida diante das 40 mil pessoas retomou o simbolismo da Vila Euclides na trajetória política brasileira.

O estádio que recebeu Lula em 1979 foi palco de mobilizações de trabalhadores que ajudaram a marcar o processo de abertura política e a luta sindical no ABC. Em 2026, o mesmo espaço recebeu o lançamento de uma nova etapa da trajetória eleitoral do presidente.

Quarenta e sete anos depois, a estrutura mudou, o público aumentou e a voz de Lula estava mais rouca, como ele próprio reconheceu. A memória, no entanto, continuou ligada ao mesmo lugar onde o então metalúrgico precisou transformar milhares de trabalhadores em seu primeiro sistema de som.

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*Com informações: PT

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