CNE limita uso de IA por crianças: o que isso muda na alfabetização
CNE limita uso de IA por crianças: o que isso muda na alfabetização
O Conselho Nacional de Educação (CNE) acaba de aprovar novas diretrizes para o uso de inteligência artificial nas escolas. A medida ganha destaque em setembro, Mês da Alfabetização, ao estabelecer restrições ao acesso direto e não supervisionado a ferramentas de IA por crianças da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
Antes de entrar em vigor, o texto ainda precisa ser homologado pelo Ministério da Educação (MEC) e publicado no Diário Oficial da União (DOU). A partir da publicação, redes de ensino e instituições educacionais terão 12 meses para se adaptar às novas diretrizes. Algumas medidas, porém, terão aplicação imediata, como o uso de IA.
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A discussão sobre os limites da tecnologia nas escolas se soma a uma transformação mais ampla na educação, que também envolve a maneira de ensinar a ler e escrever. Práticas tradicionais de alfabetização convivem cada vez mais com livros, jogos, projetos e recursos digitais, ampliando as possibilidades de aprendizagem e trazendo novos desafios para educadores.
Para Camila Portugal Lacerda, professora regente do Colégio Positivo – Jardim Ambiental, os avanços nos estudos sobre alfabetização e desenvolvimento infantil ampliaram a compreensão sobre como a criança aprende, considerando seus conhecimentos, hipóteses sobre a escrita e experiências ao longo do processo. Essa mudança acompanha uma infância marcada pelo contato crescente com diferentes linguagens, informações e formas de interação.
“Alfabetizar não é só ensinar letras e sílabas de forma isolada. A leitura e a escrita precisam fazer sentido e estar presentes nas brincadeiras, nos projetos, nas investigações e nas experiências que as crianças vivem”, esclarece a educadora.
Ler também é compreender

Aprender a relacionar letras e sons e dominar o sistema de escrita continua sendo fundamental na alfabetização. Mas ler vai além de decodificar palavras: envolve compreender, interpretar e construir sentidos a partir da combinação entre textos, imagens e outras linguagens, como fotografias, gráficos, sons e vídeos.
É a partir dessa visão mais ampla que os multiletramentos ganham espaço. Segundo a gerente pedagógica da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Centro de Inovação Pedagógica, Pesquisa e Desenvolvimento dos colégios da Rede Positivo (CIPP), Hannyni Mesquita, a criança aprende como funciona o sistema de escrita enquanto participa de situações de leitura, escrita, oralidade e produção de sentidos.
“A alfabetização mantém um objeto específico e indispensável: a apropriação do sistema de escrita alfabética. O que se amplia é aquilo que esperamos que a criança consiga fazer com esse conhecimento: compreender, relacionar, interpretar diferentes linguagens, questionar informações, produzir sentidos e se posicionar”, ressalta a especialista.
Na sala de aula, essa perspectiva pode transformar uma investigação em perguntas e registros; uma viagem em relatos e diários; a observação de uma imagem em pesquisa; e uma brincadeira em listas, bilhetes ou legendas. De acordo com a professora, são experiências em que diferentes aprendizagens acontecem integradamente. “A criança brinca, investiga e vive uma experiência, mas, ao mesmo tempo, lê, escreve, interpreta e comunica aquilo que descobriu.”
O novo não substitui o essencial
Se as possibilidades aumentaram, algumas aprendizagens fundamentais permanecem no centro da alfabetização. A incorporação de novas metodologias e recursos não elimina conhecimentos e habilidades essenciais para a criança aprender a ler e a escrever.
Para Hannyni, inovar não significa abandonar essas bases. “Trabalhar a relação entre letras e sons, a consciência fonológica, a leitura, a escrita e a produção de textos continua sendo fundamental. O desafio é justamente encontrar esse equilíbrio: proporcionar experiências significativas, mas sem perder a intencionalidade e o olhar para o processo de cada criança”, salienta.
A escrita à mão desenvolve habilidades motoras e cognitivas diferentes das exigidas pela digitação, por isso a escolha entre papel e recursos digitais deve considerar a atividade e sua finalidade pedagógica. Além do domínio das letras, a alfabetização também depende do repertório que a criança constrói a partir de suas experiências e do contato com o mundo.
“Para ler e escrever, a criança precisa ter o que dizer. A alfabetização não se constrói apenas no encontro com as letras. Ela também se alimenta das experiências, das relações, dos conhecimentos, das perguntas, das palavras e das imagens que a criança vai construindo sobre o mundo”, pontua Hannyni.
Esse repertório pode nascer da observação da natureza, de perguntas, desenhos, músicas, dramatizações e brincadeiras. Para a professora, essas experiências não concorrem com a alfabetização, mas podem dar sentido a ela. “O mais interessante é justamente quando essas coisas se encontram e a criança percebe que ler e escrever têm uma função dentro daquilo que ela está vivendo.”
Alfabetização em um mundo digital
Hoje, as crianças crescem em meio à circulação rápida de informações em diferentes formatos. Esse cenário amplia as possibilidades de aprendizagem, mas também exige desenvolver a capacidade de interpretar, comparar e questionar o que se lê, vê e ouve.
Para Hannyni, mais importante do que a quantidade de tecnologia utilizada é a intencionalidade pedagógica. Recursos digitais podem apoiar pesquisas, comparações e formulação de hipóteses, sem substituir o que a criança precisa realizar por si mesma. Esse aprendizado envolve compreender que a tecnologia pode errar, comparar informações, questionar a origem das respostas e reconhecer que nem tudo o que aparece em uma tela é verdadeiro.
“A criança precisa continuar vivendo o esforço intelectual de compreender um texto, formular uma ideia, escolher palavras, organizar aquilo que deseja comunicar e revisar o próprio pensamento. A ferramenta pode apoiar esse processo, mas não pode realizá-lo no lugar dela”, reforça a especialista.
As transformações também alcançam a maneira de acompanhar a aprendizagem. Nesse processo, os avanços nem sempre aparecem apenas no resultado final. Para Camila, “às vezes, ela ainda não lê ou escreve convencionalmente, mas está fazendo avanços importantes. Por isso, é fundamental observar o que ela já sabe, quais hipóteses está construindo e onde estão as suas dificuldades”, observa a professora.
Depois de décadas de transformações, a alfabetização ganhou novos recursos, linguagens e desafios, sem abandonar aprendizagens e experiências fundamentais. Hannyni Mesquita sintetiza um dos principais desafios dos Anos Iniciais: “Não apenas formar crianças capazes de ler o que está diante dos olhos, mas também de pensar sobre aquilo que leem.”
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Fonte: Central Press
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