Vencer a ira

Por Dom Pedro Carlos Cipollini, bispo de Santo André

O que é a ira? Chamada thymos pelos gregos, é a força que nos permite confrontar e superar os obstáculos existentes entre nós e o objeto de nosso desejo. Sem ira, qualquer dificuldade seria suficiente para nos fazer desistir de nossos propósitos. Esta é uma avaliação positiva do que seja a ira: poder de reagir diante das adversidades e obstáculos.

Refiro-me, porém, aqui, ao descontrole da ira, que é o que propriamente conhecemos como ira. Dentre todas as paixões, é a mais forte, a que mais espanta e a que pior condiz com o homem, cuja natureza ela transforma em fera. O problema não é nossa reação enérgica diante dos obstáculos, a capacidade de se indignar com a injustiça, mas é o descontrole desta paixão, desta força poderosa que se chama ira, deixando-a correr solta e sem condução.

Jesus no Evangelho tem seu momento de ira, indignação com a injustiça (Ev. Jo 2,14-19), mas nunca deixou a ira correr descontrolada, sempre a dominou. Do contrário, com o poder que tinha, poderia destruir seus inimigos. Nos relatos de sua paixão e morte na cruz, vemos um completo domínio desta força que habita em nós. Sempre foi racional, direcionou para a justiça e o amor todos seus atos repletos de misericórdia.

Há uma face da ira que é pecaminosa, ela ferve e explode, é um dos piores vícios, um dos vícios chamados “capitais”, pois está na cabeça, na linha de frente de tudo aquilo que destrói a pessoa humana. Estamos vivendo sem dúvida no Brasil de hoje um momento de ira descontrolada.

Mas qual a raiz desta ira viciosa? “Pensando bem, pode-se defini-la como intolerância à realidade. A vida, as pessoas, as situações, Deus: tudo acontece exatamente de um jeito que irrita e pode até nos enfurecer” (B. Bonowitz). O que provoca a ira é o descompasso entre o que desejo e o que espero das situações, e o modo como realmente elas são. Colocamos nossas expectativas como exigências não negociáveis. O que gostaríamos é que todos nos dissessem; “seu desejo é uma ordem, é você quem manda”. Quando isto não acontece explode a ira.

Logo se vê que as maiores vítimas das explosões de ira são pessoas autoritárias. E digo maiores vítimas não me referindo às que sofrem ao redor do iracundo, mas à própria pessoa irada. O que não controla sua ira é a maior vítima dela. O efeito da ira diz Sêneca, se assemelha à queda de uma casa que, ao chocar-se com outra, a si própria destrói.

A ira descontrolada se manifesta de vários modos: desde tratamento indiferente, queixas, abuso verbal, ironias e deboches, fake News, assassínio de reputação e de caráter, chegando até à violência física. É evidente que no fundo o que cede à ira é um frustrado. A ira é irracional e uma vez viciado em ira, a pessoa dificilmente consegue se controlar. Quem dá vasão a sua ira, fica como que embriagado, ela é como uma droga usada para dar força, mas embaralha a vista.

A vida na sociedade põe nossa ira à prova. Em especial, a ira de quem governa é testada em cargos de responsabilidade e liderança. A psicologia mostra que no fundo, quem se deixa levar pela ira e descarrega-a nos outros, na verdade tem ódio é de si mesmo, de suas incapacidades, defeitos e outras mazelas que percebe em sua pessoa, mas não aceita e, projeta e combate nos outros.

Enfim, para os padres do deserto, os sábios eremitas dos primeiros séculos do cristianismo, a ira é própria dos demônios. Eles ardem no fogo de sua própria ira contra Deus. Por isso, quem vence a ira, vence o maior dos inimigos.

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