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Empresas no governo Bolsonaro × Lula o que os números realmente mostram

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Empresas no governo Lula e Bolsonaro: o que os números realmente mostram

Recuperações judiciais atingiram níveis recordes durante o governo Lula, mas dados não sustentam afirmação de que o país tenha registrado recorde de falências

Uma afirmação que vem circulando nas redes sociais aponta que o Brasil teria registrado um número recorde de falências de empresas durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A análise dos dados disponíveis, entretanto, mostra que a informação mistura conceitos diferentes e produz uma conclusão que não corresponde às estatísticas oficiais.

O que de fato ocorreu foi um forte crescimento dos pedidos e processos de recuperação judicial, que atingiram níveis recordes em determinados critérios. Já os dados referentes às falências apontam comportamento diferente: em 2025, por exemplo, houve queda nesse indicador.

A distinção é fundamental. Recuperação judicial e falência não são sinônimos. Na recuperação judicial, a empresa enfrenta dificuldades financeiras e busca reorganizar suas dívidas para tentar continuar funcionando. A falência, por sua vez, está relacionada ao processo de liquidação do patrimônio da empresa quando a insolvência não consegue ser superada. Em outras palavras, a recuperação judicial é justamente um mecanismo criado para tentar evitar a falência.

O que aconteceu durante o governo Lula

Em 2023, primeiro ano do atual mandato de Lula, foram registrados 1.405 pedidos de recuperação judicial, crescimento de 68,7% em relação a 2022. O número representou o quarto maior resultado da série histórica da Serasa iniciada em 2005.

Em 2024, o número chegou a 2.273 pedidos, alta de 61,8% em relação ao ano anterior e, segundo a metodologia utilizada naquele momento pela Serasa Experian, o maior número da série histórica.

A metodologia foi posteriormente aprimorada. Em 2025, a Serasa passou a diferenciar processos judiciais dos CNPJs envolvidos. Nesse novo critério, foram registrados 977 processos de recuperação judicial envolvendo 2.466 CNPJs, número recorde de empresas envolvidas na série.

Os números de falência, porém, contam outra história. Em 2025, foram registrados 698 CNPJs envolvidos em pedidos de falência, uma redução de 19% em relação a 2024.

Assim, os dois indicadores seguiram caminhos opostos: recuperações judiciais em nível recorde e falências em queda.

E como foi no governo Bolsonaro?

A comparação com os quatro anos anteriores também precisa levar em conta as diferenças entre os indicadores e os efeitos extraordinários da pandemia de Covid-19.

Entre 2019 e 2022, os pedidos de falência registrados pela Serasa passaram de 1.417 para 866, uma redução aproximada de 39%. No mesmo período, os pedidos de recuperação judicial caíram de 1.387 para 833, aproximadamente 40%.

Entretanto, não seria correto atribuir automaticamente essa queda às políticas do governo Bolsonaro. Os anos de 2020 e 2021 foram profundamente influenciados pela pandemia, por renegociações de dívidas, medidas emergenciais, flexibilização de pagamentos e condições de crédito que ajudaram a evitar uma explosão imediata dos pedidos formais de insolvência.

Por isso, uma comparação puramente política entre os dois períodos pode levar a conclusões equivocadas.

Mais empresas fecharam durante o governo Lula?

Nesse ponto, os números mostram uma mudança significativa.

O número de empresas formalmente encerradas aumentou de 1,69 milhão em 2022 para 2,15 milhões em 2023 e 2,44 milhões em 2024. Entre 2022 e 2024, o crescimento dos encerramentos foi de aproximadamente 44%.

O dado merece atenção, mas também não pode ser interpretado automaticamente como número de empresas que faliram.

O encerramento de um CNPJ pode ocorrer por diversas razões: mudança de atividade profissional, encerramento voluntário, reorganização empresarial, aposentadoria do empreendedor, abertura de outro CNPJ ou simplesmente decisão de interromper determinada atividade.

O Mapa de Empresas registra movimentações cadastrais e inclui, entre outros, microempreendedores individuais. Portanto, empresa encerrada não significa necessariamente empresa insolvente ou falida.

O Brasil continuou abrindo empresas

Outro dado importante ajuda a completar o cenário.

Em 2022, foram abertas aproximadamente 3,84 milhões de empresas. Em 2023, foram 3,87 milhões, enquanto 2024 registrou 4,25 milhões de novas empresas.

Em 2025, o país chegou a aproximadamente 5,1 milhões de empresas abertas, segundo levantamento baseado nos dados da Receita Federal. Cerca de 96% desse universo era formado por pequenos negócios.

Portanto, afirmar simplesmente que “milhões de empresas fecharam durante o governo Lula” apresenta apenas uma parte da realidade. O país também registrou milhões de novos CNPJs e, nos anos analisados, o número de empresas abertas permaneceu superior ao número de encerramentos.

Em 2022, foram abertas 3,84 milhões de empresas e encerradas 1,70 milhão, resultando em saldo positivo de aproximadamente 2,14 milhões. Em 2023, o saldo foi de aproximadamente 1,71 milhão, enquanto em 2024 chegou a 1,82 milhão.

O cenário, portanto, revela aumento simultâneo de abertura e fechamento de empresas, caracterizando maior movimentação e rotatividade no ambiente empresarial.

Onde está o problema?

Apesar de os dados não sustentarem a afirmação de um recorde de falências, existe um problema empresarial concreto que não deve ser ignorado.

O crescimento das recuperações judiciais indica que uma parcela significativa das empresas brasileiras passou por dificuldades financeiras. Entre os fatores apontados estão endividamento, inadimplência, crédito mais caro e restrito e pressão sobre o fluxo de caixa.

A situação também varia conforme o setor econômico. Em 2025, entre os CNPJs em recuperação judicial, aproximadamente 30,1% pertenciam à agropecuária, 30% a serviços, 21,7% ao comércio e 18,2% à indústria.

A taxa de juros também é um elemento importante. Empresas altamente endividadas podem enfrentar dificuldades quando precisam renovar ou refinanciar seus débitos a custos financeiros elevados.

Por outro lado, seria igualmente simplista atribuir todas as dificuldades empresariais às decisões do governo Lula. Empresas que chegaram à recuperação judicial em 2023, 2024 ou 2025 podem carregar dívidas acumuladas durante vários anos. Os efeitos econômicos da pandemia, mudanças nas condições de crédito, problemas específicos de determinados setores e decisões individuais de gestão também fazem parte desse cenário.

E 2026?

Os dados de 2026 ainda não permitem uma comparação anual definitiva.

Até abril, a Serasa contabilizava 224 processos de falência envolvendo 234 CNPJs e 268 processos de recuperação judicial envolvendo 602 CNPJs. A própria empresa alerta que os números podem sofrer revisões.

No âmbito empresarial, os dados do governo estavam atualizados até junho de 2026, quando o Brasil possuía aproximadamente 25,2 milhões de empresas ativas. Somente naquele mês foram abertas cerca de 456 mil empresas.

Como o ano ainda não terminou, não é adequado transformar esses números parciais em uma projeção anual e apresentá-la como resultado definitivo.

Afinal, o que os números mostram?

Os dados permitem chegar a algumas conclusões objetivas.

Não é correto afirmar que o Brasil registrou recorde de falências durante o governo Lula. Essa afirmação mistura falências com recuperações judiciais e, portanto, é falsa ou, no mínimo, enganosa.

É correto afirmar que as recuperações judiciais cresceram fortemente durante o governo Lula e atingiram níveis recordes, especialmente quando se considera o número de CNPJs envolvidos nos processos.

Também é correto afirmar que o número de empresas formalmente encerradas aumentou significativamente em 2023 e 2024. Entretanto, esse indicador não representa exclusivamente empresas que quebraram, pois inclui encerramentos cadastrais de diferentes naturezas.

Ao mesmo tempo, o Brasil continuou registrando saldo positivo entre abertura e fechamento de empresas, e 2025 apresentou um recorde de novos CNPJs.

O veredito

A frase “No governo Lula, as falências de empresas dispararam e bateram recordes” é falsa ou enganosa.

Já a afirmação “Durante o governo Lula, as recuperações judiciais de empresas cresceram fortemente e atingiram níveis recordes” é sustentada pelos dados.

A análise mais equilibrada é que o período Lula apresenta sinais claros de maior estresse financeiro em parte do setor empresarial, especialmente pelo crescimento das recuperações judiciais e dos encerramentos de CNPJs. Entretanto, transformar esses números em uma afirmação de “recorde de falências” altera o significado dos dados.

Mais do que escolher entre uma narrativa favorável a Lula ou a Bolsonaro, os números mostram que o ambiente empresarial brasileiro é resultado de uma combinação de fatores econômicos, financeiros e conjunturais. A comparação entre governos precisa considerar juros, crédito, endividamento, pandemia, atividade econômica e abertura e fechamento de empresas, além dos indicadores de falência e recuperação judicial.

Em jornalismo econômico, a diferença entre esses conceitos é fundamental: uma empresa que busca recuperação judicial ainda está tentando evitar a falência.

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