CidadesCulturaDestaques

A Língua Que Se Perde Por Querer Parecer Culta

Tempo estimado de leitura: 5 minutos

13 Erros de Português Que Parecem Cultos, Mas Estão Errados

A Língua Que Se Perde Por Querer Parecer Culta: 13 Erros Que Até Quem Tem Diploma Comete

Há dois tipos de erro que empobrecem a língua portuguesa. O primeiro nasce da ignorância. O segundo, mais grave, nasce da vaidade: o de quem quer parecer culto sem sê-lo. O primeiro erra sem saber. O segundo erra por julgar que acertou.

Introdução

Eis alguns exemplos que se tornaram frequentes, até em jornais, em textos de empresas e em discursos de pessoas com diploma. São erros que parecem elegantes, mas que, na norma culta, estão errados. E, pior, dizem o contrário do que se pretende dizer.

 1. “Eu vi ele” em lugar de “Eu o vi”

Diz-se: “Eu vi ele ontem”, “Eu chamei ela”, “Vou encontrar eles”.

O correto, na norma culta, é: “Eu o vi ontem”, “Eu a chamei”, “Vou encontrá-los”.

O pronome reto, “ele”, “ela”, “eles”, exerce a função de sujeito. Não exerce a de objeto direto. Para objeto, a língua dispõe de “o, a, os, as”. Quem domina a norma tem a possibilidade de escolher o registro. Quem só conhece “vi ele” não tem escolha.

2. “Assertivo” em lugar de “certeiro”

Diz-se: “Ele foi assertivo na reunião”, quando se quer dizer que ele foi certeiro, preciso, exato.

Assertivo não significa certeiro. Assertivo é quem se afirma com clareza, sem agressividade e sem submissão. É qualidade de comportamento.

Certeiro é quem acerta o alvo. É qualidade de precisão.

Confundir os dois vocábulos é revelar que não se conhece o sentido de nenhum deles.

3. “Ele não se encontra” em lugar de “Ele não está”

Diz-se, ao telefone: “O diretor não se encontra”, “O doutor não se encontra no momento”.

É um eufemismo pomposo e incorreto. E o erro está na raiz: encontrar não é sinônimo de estar.

Estar indica presença, estado, localização. Diz-se: “Ele está aqui”, “Ele não está agora”, “Ele está no escritório”. É simples, direto, exato.

Encontrar indica achar, localizar depois de procura, deparar-se com. É verbo transitivo, que supõe busca e resultado. Diz-se: “Encontrei o livro”, “Encontrei-o na rua”, “Não o encontrei em parte alguma”.

Quando se diz “O diretor não se encontra”, o que se está a dizer, literalmente, é que o diretor não foi encontrado. Não se sabe onde está. Perdeu-se? Está com problemas e está perdido? Está incomunicável? Ninguém o localizou?

Ora, o diretor não está perdido. O diretor apenas não está no local, no momento. Sabe-se perfeitamente onde ele está: está em reunião, está em casa, está em viagem. Não está desaparecido. Não está extraviado.

O uso de “não se encontra” transforma uma ausência simples e normal numa espécie de desaparecimento. É impreciso, é afetado e é logicamente falso.

O correto, portanto, é sempre: “O diretor não está”, “O doutor não está no momento”, “Ele não está aqui agora”.

Quem quer ser educado não precisa recorrer ao eufemismo. A educação está na clareza e na cortesia, não no rebuscamento.

4. “Via de regra” em lugar de “Em regra” ou “Regra geral”

Diz-se: “Via de regra, ele chega cedo”.

A expressão correta é: “Em regra, ele chega cedo”, “De regra, ele chega cedo”, “Em geral, ele chega cedo”, “Geralmente, ele chega cedo” ou “Regra geral, ele chega cedo”.

“Via de regra” é um cruzamento infeliz entre “via” e “em regra”. E, como se tem observado, soa feio. Porque é feio. E feio por duas razões.

“Via” significa caminho, caminho por onde se vai, conduta por onde algo passa. Na linguagem médica e jurídica, fala-se em “via oral”, “via intravenosa”, “via vaginal”, “via anal”, para indicar o caminho por onde se administra um medicamento ou por onde se dá um procedimento.

Por isso, quando se diz “Via de regra”, está-se a falar, literalmente, de uma via, de um caminho, de um canal. E, num contexto em que “via” se emprega para designar o caminho do corpo, a expressão adquire uma ambiguidade infeliz e vulgar, que nada tem a ver com o sentido pretendido de “geralmente”.

Quer-se dizer “geralmente, em regra”, e diz-se algo que sugere um caminho físico, uma via corporal. É o oposto da elegância que se pretendeu alcançar.

A forma correta, limpa e inequívoca, é: “Em regra”, “De regra”, “Em geral”, “Geralmente”, “Regra geral”.

Diz-se: “Em regra, ele chega cedo”. “Regra geral, o processo é simples”. Jamais: “Via de regra, ele chega cedo”.

5. “Enquanto presidente, faço isso” em lugar de “Como presidente, faço isso”

Diz-se, com ar solene: “Enquanto presidente, faço isso”, “Enquanto diretor, decido assim”.

O erro está na raiz: enquanto não é sinônimo de como.

Enquanto indica tempo, simultaneidade, duração. Significa “durante o tempo em que”, “ao passo que”. Diz-se: “Enquanto ele falava, eu anotava”, “Enquanto presidente, ele viajou muito”. Aqui, enquanto marca o período em que ele foi presidente.

Como, neste emprego, indica função, condição, qualidade, papel. Significa “na qualidade de”, “na condição de”. Diz-se: “Como presidente, faço isso”, “Como diretor, decido assim”.

Quem diz “Enquanto presidente, faço isso”, querendo dizer que faz isso na qualidade de presidente, está a dizer, na verdade, que faz isso durante o tempo em que é presidente. É outra ideia. É tempo, não é função.

Se a intenção é exprimir o cargo, a autoridade, a responsabilidade, o correto é: “Como presidente, faço isso”. “Como pai, digo isto”. “Como médico, recomendo aquilo”.

Mais uma vez, o rebuscamento troca a precisão pela solenidade vazia.

6. “A nível de” em lugar de “Em nível de” ou “Quanto a”

Diz-se: “A nível de Brasil”. O correto é: “Em nível de Brasil” ou, melhor, “Quanto ao Brasil”.

7. “Onde” em lugar de “Em que” ou “No qual”

Diz-se: “O dia onde ele chegou”, “A reunião onde se decidiu”. “Onde” indica lugar, não tempo nem situação. O correto é: “O dia em que ele chegou”, “A reunião na qual se decidiu”.

8. “Ao invés de” em lugar de “Em vez de”

“Ao invés de” significa “ao contrário de”. “Em vez de” significa “em lugar de”. Diz-se: “Em vez de estudar, saiu”. Não: “Ao invés de estudar, saiu”, salvo se se quiser exprimir oposição.

9. “Chegar em casa” em lugar de “Chegar a casa”

O verbo chegar rege a preposição “a”. O correto é: “Chegou a casa”, “Chegou ao escritório”.

10. “Meio-dia e meia” em lugar de “Meio-dia e meio”

Diz-se: “Meio-dia e meio”, pois se subentende “meio-dia e meia hora”. Na norma culta, a forma consagrada é “meio-dia e meio”.

11. “Fazer uma colocação” em lugar de “Fazer uma observação”

“Colocação” é termo de gramática, de emprego, de colocação de pronomes. Em reunião, faz-se uma observação, um comentário, uma ponderação. Não se “faz uma colocação”.

12. “Por hora” em lugar de “Por ora”

“Por hora” significa “por cada hora”. “Por ora” significa “por enquanto”. Diz-se: “Por ora, não há decisão”. Não: “Por hora, não há decisão”.

13. “Ir de encontro” em lugar de “Ir ao encontro”

Diz-se, na maioria das vezes de forma errada: “Ele foi de encontro aos meus interesses”, quando se quer dizer que ele veio a favor, em apoio, em concordância.

O erro está na preposição, e a preposição muda tudo.

*Ir ao encontro significa ir na direção de, ir a favor de, ir para se reunir, para acolher, para concordar. É movimento de aproximação, de convergência. Diz-se: “Ele foi ao encontro do amigo”, “A proposta foi ao encontro do que se esperava”, “O discurso foi ao encontro dos anseios da plateia”.

Ir de encontro significa ir contra, chocar-se com, colidir, opor-se. É movimento de choque, de divergência. Diz-se: “O carro foi de encontro ao muro”, “A decisão foi de encontro à lei”, “O argumento foi de encontro à verdade”.

São sentidos opostos. Um é acolher. O outro é chocar.

Quem diz “Foi de encontro aos meus interesses”, querendo dizer que foi a favor, está a dizer, na verdade, que foi contra. Está a dizer o contrário do que pensa. E o contrário do que pensa, em documento, em discurso, em contrato, tem consequências.

A distinção é simples, e deve ser guardada: ao encontro é a favor. De encontro é contra.

Conclusão

A língua não se perde apenas quando se fala errado. Perde-se, sobretudo, quando se fala errado por querer falar bonito.

Quem diz “vi ele” por simplicidade pode aprender. Quem diz “assertivo”, “não se encontra”, “via de regra”, “enquanto presidente”, por vaidade, julga já saber. E quem julga já saber, não aprende.

Guardar a norma culta não é pedantismo. É guardar a precisão do pensamento. Porque quem não sabe dizer com exatidão o que pensa, tampouco consegue pensar com exatidão o que diz.

Leia mais matérias relacionadas a cultura.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *