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Lula fala à CNN sobre Trump, tarifas e eleições

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Lula fala à CNN sobre Trump, tarifas e eleições

A entrevista de Lula à jornalista Christiane Amanpour, da CNN, nesta segunda-feira (21), em Nova York, teve como principais temas a relação do Brasil com os Estados Unidos, as tarifas comerciais, as eleições brasileiras, a situação da Venezuela e a defesa do multilateralismo. As declarações fazem parte de material divulgado pela CNN Communications antes da abertura do debate geral da Assembleia Geral das Nações Unidas. A agenda da entrevista exclusiva com Amanpour também havia sido confirmada pela CNN Brasil.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está nos Estados Unidos para participar da 81ª Assembleia Geral da ONU. O Brasil tradicionalmente abre os discursos dos chefes de Estado, e a participação de Lula está prevista para esta terça-feira (22).

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Durante a entrevista, Lula fez críticas ao presidente norte-americano Donald Trump, defendeu negociações comerciais entre os dois países e afirmou que pretende buscar novos mercados diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos.

Lula defende fortalecimento do multilateralismo

Um dos assuntos abordados foi a criação do Partners for Multilateralism (Parceiros pelo Multilateralismo), iniciativa lançada com participação de Brasil, Canadá, Quênia, União Europeia e outros países.

O grupo pretende fortalecer e reformar organismos multilaterais, especialmente as Nações Unidas, e ampliar a cooperação em áreas como comércio, inteligência artificial, mudanças climáticas, saúde e segurança internacional.

Ao comentar a proposta, Lula criticou o avanço de relações internacionais baseadas, segundo sua avaliação, em decisões unilaterais.

“Estamos enfrentando uma guerra econômica desnecessária ao mundo. O multilateralismo funcionou para manter o mundo em uma certa harmonia comercial, pois sem essa harmonia, a economia global seria uma bagunça. Quanto ao comportamento do Presidente Trump, ele tem um forte viés para favorecer o unilateralismo e as relações bilaterais, sem levar em conta todas as questões comerciais, isso é muito perigoso… É preciso haver equilíbrio entre tecnologia e comércio… E estamos tentando mostrar o seguinte: a melhor forma de manter o mundo em harmonia é fortalecendo o multilateralismo.”

A iniciativa Partners for Multilateralism prevê uma estrutura aberta e flexível, sem a criação de um novo bloco internacional, e defende princípios como soberania, integridade territorial e solução pacífica de conflitos.

Lula critica forma de governar de Trump

Questionado sobre Donald Trump, Lula afirmou discordar da forma como o presidente dos Estados Unidos conduz determinadas relações internacionais.

“É uma forma de governar com a qual eu não concordo. Ele tem um jeito de governar você sabe que eu sou mais forte, mais poderoso, mais rico, eu posso fazer de tudo e os outros devem obedecer. É mais forte que a lei. Eu não concordo com isso, a lei é mais forte.”

A CNN também publicou nesta segunda-feira trechos da entrevista em que Lula voltou a criticar Trump e defendeu o multilateralismo.

Lula diz que tarifas dos EUA são baseadas em “mentiras”

As tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros também ocuparam parte da entrevista.

Lula classificou como equivocadas as justificativas apresentadas para as medidas e afirmou que o Brasil tem procurado ampliar suas relações comerciais com outros mercados.

“Eu acredito que essas tarifas são baseadas em mentiras. O Brasil tem um déficit comercial de muitos bilhões de dólares com os EUA, então o que está acontecendo agora é o seguinte. Ao invés de chorar, estou tentando procurar novos parceiros… Minha relação de comércio com os Estados Unidos caiu 9%, as exportações para os EUA caíram 8,5%. 8,5% importam dos EUA para o Brasil. Mesmo assim, tivemos uma média de crescimento de 10,5% com outros 57 países… Então eu não vou chorar pelo leite derramado. Eu vou procurar outros parceiros para tentar comprar e vender.”

O crescimento de 10,5% das relações comerciais brasileiras com 57 países também havia sido citado anteriormente pelo governo brasileiro ao tratar da estratégia de diversificação das exportações.

Apesar das críticas, Lula afirmou que não pretende iniciar uma disputa tarifária com Washington.

“Eu não quero chegar à uma guerra tarifária com os Estados Unidos ou qualquer outro país. O que eu quero é negociar, e eu acredito na negociação”.

Em outro trecho publicado pela CNN, Lula afirmou que, caso as negociações não avancem, o Brasil poderá recorrer aos mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica.

“Não queremos desafiar os Estados Unidos”, diz Lula

O presidente também disse que pretende manter relações comerciais e diplomáticas com os Estados Unidos, mas defendeu que a soberania brasileira seja respeitada.

“Não queremos desafiar os Estados Unidos. Nós apenas queremos dizer que todo país tem a sua própria soberania. Eles podem cuidar de seus próprios interesses, e os EUA não podem impor suas regras aos outros. Esta é a questão. O presidente Trump foi eleito para presidir os Estados Unidos. Ele tem o direito de governar. Mas ele não tem direito de governar outros países… Ele tem que estar disposto a negociar. Isso é o que é de nosso interesse. Nós não queremos interferir nos assuntos internos dos EUA. Nós queremos construir parcerias com empresas americanas, chinesas, francesas e alemãs”.

Durante a mesma entrevista, Lula afirmou ter pedido a Trump que não interferisse nas eleições brasileiras e disse que o presidente norte-americano teria sinalizado que não pretende se envolver no pleito.

Lula fala sobre eleições de 2026

A menos de duas semanas do primeiro turno das eleições brasileiras, marcado para 4 de outubro, Lula também foi questionado por Christiane Amanpour sobre a disputa presidencial.

“Toda eleição me preocupa, porque nós não sabemos o resultado até que as urnas são abertas, mas a verdade é que o que está em jogo hoje no Brasil não é uma escolha de pessoas ou partidos rivais. O que está em jogo é a escolha de que ou temos democracia ou temos barbárie. Ou temos uma política que conserva a natureza ou desmatamento, políticas de inclusão social ou deixar os pobres abandonados, ou fortalecemos a cultura ou acabamos com ela. É isso que está em jogo agora, e eu tenho consciência de que eu vou vencer as eleições.”

A afirmação sobre uma eventual vitória representa a avaliação do próprio presidente e candidato à reeleição, não uma projeção de resultado. Em trecho divulgado pela CNN, Lula também afirmou que fica preocupado em todas as eleições porque o resultado só é conhecido após a abertura das urnas.

Venezuela também entra na entrevista

A atuação dos Estados Unidos na Venezuela foi outro ponto abordado.

Lula criticou a forma como Washington vem se relacionando com o governo venezuelano e defendeu a realização de eleições para que a população defina os próximos rumos políticos do país.

“É muito severo, o que os Estados Unidos fizeram com a Venezuela. Os EUA têm a ideia de que eles estão governando a Venezuela. Esta é a mensagem que eles querem passar, todo documento que lemos do acordo diz que parece que os EUA são o grande chefe da Venezuela. A soberania do país acabou. Isso não é bom. Não é bom para os EUA, não é bom para a Venezuela e muito menos para a democracia. A ideia é construir uma parceria com a Venezuela para que o país… eu disse outro dia, se eu fosse Delcy Rodríguez, a presidente, convocaria eleições nacionais para que as pessoas pudessem escolher quem será o próximo presidente do país, porque a forma como os EUA está tratando Delcy, parece que eles são seu chefe… Essa não é a melhor forma de seguir as relações internacionais ou a política internacional dos EUA. Se Maduro cometeu um erro, ele terá que ser julgado. Então, descobriremos. Tem que haver uma investigação. Um país não pode acusar ao outro.”

A CNN publicou separadamente o trecho em que Lula afirmou considerar grave a atuação dos Estados Unidos na Venezuela e disse que a situação, em sua avaliação, prejudica a soberania venezuelana e a democracia.

A entrevista ocorreu na véspera do início dos discursos dos chefes de Estado na Assembleia Geral da ONU, onde soberania, conflitos internacionais, comércio e fortalecimento do sistema multilateral também estarão entre os temas da agenda brasileira.

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